A Nova Era da Polestar: Do Arrojado “Sem Vidro” 4 ao Imponente SUV 3
A Polestar já não é uma estranha nas nossas estradas. Depois de termos espremido a autonomia da marca numa viagem entre Lisboa e Faro com o Polestar 2, a construtora sueca decidiu baralhar as regras do jogo com uma ofensiva de peso, introduzindo o polémico Polestar 4 e o seu primeiro verdadeiro SUV, o Polestar 3. Juntámos as peças deste puzzle elétrico para perceber se há substância e utilidade real por trás de tanto exercício de estilo.
Design e Conceito: Cortar com o Passado
O Polestar 4, posicionado algures entre o 2 e o 3 (a numeração segue a ordem de lançamento e não a fita métrica), é um autêntico vira-cabeças. Trata-se de um SUV coupé 100% elétrico que tomou a ousada decisão de abolir um elemento que damos como garantido há mais de um século: o vidro traseiro. A justificação da marca, que partilha engenharia com a Geely, é que isto permite esticar a estrutura do tejadilho para trás, oferecendo imenso espaço em altura aos passageiros traseiros sem arruinar o coeficiente aerodinâmico. Confesso que não sou o maior fã desta omissão; as limitações notam-se particularmente à noite, com algum embaciamento da câmara traseira a pedir habituação ao espelho digital. Ainda assim, a silhueta desportiva arranca olhares curiosos em qualquer paragem.
Noutra frente, o novíssimo Polestar 3 de 2025 aborda o mercado com uma postura diferente. Sendo o primeiro SUV da marca — e o primeiro a ser fabricado nos Estados Unidos, na fábrica da Volvo na Carolina do Sul —, exibe uma linguagem limpa e moderna sem cair em exageros ou na estética utilitária de um “caixote”. Com 192,9 polegadas de comprimento (cerca de 4,90 metros), senta-se exatamente na fronteira entre os segmentos compacto e médio. Para garantir a eficiência, o 3 recorre a asas aerodinâmicas à frente e atrás, escondendo bem o seu porte atlético com jantes que podem ir das 20 às 22 polegadas.
A Experiência a Bordo e a Ditadura Digital
Ao entrarmos nestes modelos, o ADN premium partilhado é inegável. O habitáculo do Polestar 4 tem uma qualidade de construção irrepreensível. Os materiais de topo gritam luxo sem grande ostentação, e os bancos de trás são autênticas poltronas pensadas para devorar quilómetros.
O Polestar 3 segue a mesma cartilha minimalista. O chão plano cria um ambiente bastante arejado, complementado por um equipamento de série que não deixa ninguém a pedir mais: bancos dianteiros elétricos aquecidos, teto panorâmico, climatização tri-zona e um purificador de ar. Quem sobe na gama do 3 é brindado com pele Nappa, bancos com ventilação e massagem, portas com fecho suave e um sistema de som Bowers & Wilkins de 25 colunas que oferece uma experiência acústica avassaladora.
O calcanhar de Aquiles em ambos? A dependência quase total dos ecrãs. Com o sistema operativo Android Automotive a comandar as operações (através de um enorme ecrã vertical de 14,5 polegadas no 3), a escassez de botões físicos obriga a deambular por menus e a desviar os olhos da estrada com demasiada frequência.
Desempenho e Dinâmica: Da “Terrinha” às Vias Rápidas
Tivemos o Polestar 4 Long range Single motor nas mãos durante uma semana. O preço base de 64 900 € coloca-o num território exigente, mas a campanha a decorrer até ao final de fevereiro esmaga o valor para uns competitivos 52 600 €. Será que os 272 cv e 343 Nm de binário desta versão de tração traseira sabem a pouco para um bicho destas dimensões? Honestamente, não. Os 100 km/h chegam em 7,1 segundos, o que garante ultrapassagens seguras e uma condução bastante despachada, disfarçando incrivelmente bem o peso das baterias.
A caminho da “terrinha”, provou ser um estradista nato. A insonorização é excelente e a suspensão lida bem com o nosso asfalto, mesmo sem os truques pneumáticos da versão Dual Motor. A conversa muda de tom nas cidades. É um carro largo e comprido. Tentar enfiar este colosso em ruas estreitas ou parques subterrâneos antigos é garantia de suores frios, e embora as câmaras 360º deem uma ajuda valiosa, não encolhem a chapa.
Se o 4 já impõe respeito, o Polestar 3 eleva a fasquia da performance, assumindo-se como um elétrico focado no condutor. A gama arranca com uma versão de motor único, mas o verdadeiro “sweet spot” é a Long Range Dual Motor. O salto para a tração integral e para os 489 cv muda completamente o caráter do SUV, justificando plenamente o esforço financeiro em relação ao modelo base.
Especificações Chave do Polestar 3:
| Versão | Motorização | Potência | Binário | Tração | 0-60 mph (0-96 km/h) |
| LR Single Motor | Motor único | 295 hp | 361 lb-ft | RWD | 6.5 seg |
| LR Dual Motor | Motores duplos | 483 hp | 620 lb-ft | AWD | 4.9 seg |
| LR Dual Motor Performance | Motores duplos | 510 hp | 671 lb-ft |
Baterias, Autonomia e Vida Real
A bateria do Polestar 4 acena com 620 km no ciclo WLTP. Na crua realidade da autoestrada, com o pé mais pesado e o ar condicionado a trabalhar, a autonomia assenta confortavelmente entre os 350 e os 400 km. Carregar dos 10% aos 80% demora meia hora em postos rápidos (até 200 kW), tornando qualquer viagem longa perfeitamente exequível com pausas curtas para café.
No caso do Polestar 3, a autonomia é fortemente ditada pelo tamanho das jantes e pela configuração mecânica. As versões de motor único conseguem cobrir entre 333 e 350 milhas (cerca de 535 a 563 km), enquanto o guloso Dual Motor Performance Pack, calçado com jantes de 22 polegadas, vê esse valor cair para as 279 milhas (aproximadamente 449 km).
A bagageira do 4 engole 526 litros de carga, podendo expandir-se até aos 1536 litros com o rebatimento dos bancos, oferecendo um acesso facilitado pelo portão elétrico. O Polestar 3, por seu turno, acaba por ficar ligeiramente atrás de alguns rivais diretos no volume de carga puro, oferecendo 1,1 pés cúbicos no compartimento dianteiro (frunk) e entre 17,1 a 49,8 pés cúbicos na bagageira principal.
Ambos os modelos vêm suportados por uma garantia limitada de 4 anos ou 50.000 milhas (para o mercado onde o 3 foi inicialmente detalhado), e 8 anos ou 100.000 milhas para os componentes elétricos, cobrindo o essencial para quem dá agora o salto para a mobilidade elétrica de luxo.
A Polestar construiu duas máquinas capazes de tirar o sono à concorrência, nomeadamente à Tesla e às velhas glórias alemãs. Trazem para o alcatrão um arrojo estético que escasseava no segmento, uma dinâmica envolvente e cabines que respiram qualidade nórdica. Exigem alguma paciência na hora de estacionar e na navegação de menus, mas a ousadia compensa largamente quem procura fugir do rebanho elétrico habitual.